terça-feira, 21 de maio de 2013

O Holograma




Não apenas cada parte do mundo faz cada vez mais parte do mundo, como o mundo enquanto todo está cada vez mais presente em cada uma de suas partes. Isso se verifica não só para as nações e os povos, mas também para os indivíduos. Da mesma forma que cada ponto de um holograma contém a informação do todo de que faz parte, doravante cada individuo também recebe ou consome as informações e as substâncias vindas de todo o universo.
Assim o europeu desperta toda manhã ligando seu rádio japonês e recebendo através dele os acontecimentos do mundo: erupções vulcânicas, tremores de terra, golpes de estado, conferências internacionais lhe chegando enquanto toma seu chá do Ceilão, da Índia ou da China, a manos que seja um café moca da Etiópia ou um arábico da America latina; ele mergulha num banho espumoso de óleos taitianos e utiliza um after-shave de fragrâncias exóticas; põe sua malha, sua meia-calça e sua camisa feitas de algodão do Egito e da Índia; veste o casaco e calça de lã da Austrália, tratada em Manchester e depois em Roubaix-Tourcoing, ou então um blusão de couro vindo da China me estilo jeans americano. Seu relógio é suíço ou japonês. Seus óculos são de escama de tartaruga das Galápagos. Sua carteira, de pecari das Caraíbas ou de réptil africano. Pode ter em sua mesa de inverno morangos ou cerejas da Argentina ou do Chile, vagens frescas do Senegal, abacates ou ananases da África, melões de Guadalupe. Dispõe do rum da Martinica, da vodca russa, da tequila mexicana, do burbom americano, do uísque irlandês. Pode escutar em sua casa uma sinfonia alemã regida por um maestro coreano, ou então assistir na televisão a ópera La Bohème, com a negra Bárbara Hendricks como Mimi e o espanhol Plácido Domingo como Rodolfo.
O africano em sua favela não participa desse circuito planetário de conforto, mas está igualmente no circuito planetário. Em sua vida cotidiana sofre os reflexos do mercado mundial que afetam as cotações do cacau, do açúcar, das matérias-primas que seu país produz. Ele foi expulso de sua aldeia por processos mundializados provenientes do ocidente, em particular os progressos da monocultura industrial; de camponês auto-suficiente tornou-se um suburbano em busca de salário, suas necessidades são doravante trazidas em termos monetários. Ele aspira ao bem-estar. Utiliza o prato de alumínio ou de plástico, bebe cerveja ou coca-cola. Dorme sobre folhas recuperadas de espuma poliestireno e veste camiseta com escritos americanos. Dana com músicas sincréticas, nas quais os ritmos de sua tradição entram numa orquestração vinda da América, veiculando a memória do que seus antepassados escravizados levaram para lá. Esse africano, transformado em objeto do mercado mundial, tornou-se também sujeito de um Estado formado com base no modelo ocidental. Assim, para o melhor e para o pior, cada um de nós, rico ou pobre, traz em si, sem saber, o planeta inteiro. A mundialização é ao mesmo tempo evidente, subconsciente e onipresente.

MORIN, Edgar. Terra Pátria. 2° edição, 2011.   

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Documentário “Encontro com Milton Santos – O mundo global visto do lado de cá”

Na última aula assistimos trechos do Documentário “Encontro com Milton Santos – O mundo global visto do lado de cá”, onde Milton Santos apresenta três globalizações:
  1. O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula 
  2. O mundo como é: a globalização como perversidade
  3. O mundo como pode ser: uma outra globalização
Abaixo segue o vídeo para os interessados em assistir todo o documentário.